Em busca da memória e do sentido da vida
"não somos todos ovelhas em busca do pastor?"
Condenados a não viver e a não regressar á Terra, os andróides do
Blade Runner
assemelham-se profundamente aqueles que, desde a expulsão do Paraíso,
anseiam pela reintegração como Adão e Eva ao serem levados pelo Arcanjo.
As ovelhas eléctricas de Phliph K. Dick, assumem em Ridley Scott uma
natureza quase angélica na figura de Roy Batty, o andróide que procura
uma nova consciência.
Roy Batty é aquele que descobre mais rapidamente que o elemento
fotografia/memória é afinal a mentira maior de toda a sua existência.
A segunda, a ilusão de permanência. Roy Batty não nos mostra uma
fotografia para invocar esperanças em relação a uma possível
humanidade.Ele sabe tudo a respeito de si próprio e sabe assumir a sua
impossibilidade social. Ele não tem nada para trás e á sua
frente,apenas o amor pela sua amada e o conhecimento da sua condenação
á morte. Ao assumir o controle da sua própria vida, arriscando-a para
ir ao encontro dos seus criadores assume uma das mais belas qualidades
humanas; a capacidade de lutar pela liberdade. Podendo escolher viver
o tempo que lhe restava na companhia da amada, escolheu o risco de ao
enfrentar o criador dos criadores, perder a vida que lhe restava. Essa
escolha faz dele alguém que merece viver, alguém que ao sair das
cortinas de sombra, dos medos característicos aos rebanhos humanos que
se perdem nas imensas catedrais de consumo para aí esconderem os seus
terrores da morte,assume o controle do próprio destino.
O risco como contrário da acomodação é símbolo de liberdade -" to live
isn´t an easy thing, hey..." .Um ser livre já não faz parte de
rebanhos e Batty transforma-se no viajante á procura da resposta para
as suas interrogações.
Terão as ovelhas sonhos eléctricos?...
Orson Wells dizia que o sonho é a única coisa importante.O nosso
Andróide converte-se naquele que sabe que vai morrer e salva Deckard,
aquele que sempre soube que só lhe restava matar.
Ao escolher salvá-lo, assume uma elevação espiritual de extrema
importância.A capacidade de aceitar a morte própria na esperança da
continuidade; salva Deckard e passa-lhe a memória para não ser
esquecido -"I´ve seen things you people wouldn´t believe..."
Confia-lhe a breve historia e morre.
E Deckard? Será ele apenas mais um sonho eléctrico de Roy Batty?...
Ou podemos afinal salvarmo-nos uns aos outros?...
Maria Henriques-2.2.1986
http://br.groups.yahoo.com/group/ArteseCinema/
Wednesday, May 30, 2007
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